quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

Espelho


 Era o último dia de Carnaval em Recife. A cidade vivia um vai e vem sem direção. Algo caótico, mas com o objetivo lúdico da festa. Pessoas de várias idades — mulheres, homens, adolescentes, jovens, adultos de meia-idade, — circulavam fantasiadas e seminuas. O Carnaval é a festa da carne. Exigia-se expor a pele.

Vi-me naquele meio ilógico e sem rumo. Sozinho diante da multidão de desconhecidos; meu olhar era de procura. Buscava algo que eu não sabia nomear. Era um perdido ensimesmado. O exterior, filtrado pelos meus olhos, expressava os descaminhos da minha alma.

Chegou sem avisar a quarta-feira de cinzas; o caos parece se aquietar, chegar ao fim, como se possível depois de dias e noites sem fim. Tudo parecia terminar, e aquela multidão se apressava para pegar os últimos ônibus da madrugada de cinzas. 


O corre pelos ônibus se fez de forma tão desordenada quanto o caos dos dias anteriores; o objetivo, de repente, passou de lúdico para o desespero de chegar a algum lugar onde se pudesse restabelecer o corpo de um exagero, legitimamente merecido, necessário e entorpecedor da realidade dramática que viria impiedosamente nos próximos dias, já que, o busão era o espaço legítimo dos desvalidos de dignidade que habitam as periferias das grandes cidades. 
Estava Eu naquela muvuca, naquele arerê; a anarquia agora era o ensaio geral da volta ao drama da vida real.

Vi-me ali, no ponto de ônibus, em meio àquela balbúrdia, numa luta de cotovelos e empurrões, para pegar o busão — os bacuraus da noite, camuflados com seus faróis fortes, que enganam os olhos de quem não ficar ligado. Depois de muitos empurrões, consegui os meu centrimetos entre o acento e o corredor; mesmo assim me sentia um privilegiado pelo espaço conquistado.

O bacurau tinha ido para um destino completamente diferente, parecia até as imagens da multidão no carnaval. Ele partiu sem rumo e chegou a lugar algum. Descemos e percebi que meus sapatos tinham ficado dentro do ônibus. Ao tentar voltar para pegá-los, vejo dois amigos indo em direção a outro ônibus. Tive uma alegria aliviadora, disse-lhes com empolgação: Vou pegar meus sapatos e volto correndo para ir com vocês! Consegui encontrar os sapatos, mas meus dois amigos já tinham ido embora, e não havia mais ônibus. Fiquei sentado na calçada e adormeci por alguns minutos.

 Acordei assustado e com um medo inesplicável daquele lugar desconhecido; sim, o desconhecido é mistério e medo, quando consigo ver ao longe uma luz acesa. Corri para lá. Era uma espécie de bar/mercearia; tinham umas 6 pessoas por lá. Elas pareciam indiferentes a minha presença repentina. Tentei interagir para obter informação sobre ônibus que pudessem me levar ao meu destino. Uns diziam que não tinha mais ônibus, outros diziam que tinha, mas que iria demorar. Pedi para trocar um Pix, já que não havia na minha carteira dinheiro em espécie para pagar outro ônibus. Uma moça com seus vinte anos e meio me atendeu com uma gentileza distante. Fiquei ali por um bom tempo tentando me proteger da rua.. Sem razão para continuar ali, dei boa noite e saí novamente pela rua escura e esquisita. Voltei para  a árvore onde tentei dormir horas antes. Os dias se passaram sem que o sol saísse, nem ninguém. O Céu sem Lua se apresentava estranhamente com poucas estrelas. Fiquei ali naquela rua insólita onde o real se fez.. adormeci novamente.

sábado, 6 de junho de 2026

 

Espelho


 Era o último dia de Carnaval em Recife. A cidade vivia um vai e vem sem direção. Algo caótico, mas com o objetivo lúdico da festa. Pessoas de várias idades — mulheres, homens, adolescentes, jovens, adultos de meia-idade, — circulavam fantasiadas e seminuas. O Carnaval é a festa da carne. Exigia-se expor a pele.

Vi-me naquele meio ilógico e sem rumo. Sozinho diante da multidão de desconhecidos; meu olhar era de procura. Buscava algo que eu não sabia nomear. Era um perdido ensimesmado. O exterior, filtrado pelos meus olhos, expressava os descaminhos da minha alma.

Chegou sem avisar a quarta-feira de cinzas; o caos parece se aquietar, chegar ao fim, como se possível depois de dias e noites sem fim. Tudo parecia terminar, e aquela multidão se apressava para pegar os últimos ônibus da madrugada de cinzas. 


O corre pelos ônibus se fez de forma tão desordenada quanto o caos dos dias anteriores; o objetivo, de repente, passou de lúdico para o desespero de chegar a algum lugar onde se pudesse restabelecer o corpo de um exagero, legitimamente merecido, necessário e entorpecedor da realidade dramática que viria impiedosamente nos próximos dias, já que, o busão era o espaço legítimo dos desvalidos de dignidade que habitam as periferias das grandes cidades. 
Estava Eu naquela muvuca, naquele arerê; a anarquia agora era o ensaio geral da volta ao drama da vida real.

Vi-me ali, no ponto de ônibus, em meio àquela balbúrdia, numa luta de cotovelos e empurrões, para pegar o busão — os bacuraus da noite, camuflados com seus faróis fortes, que enganam os olhos de quem não ficar ligado. Depois de muitos empurrões, consegui os meu centrimetos entre o acento e o corredor; mesmo assim me sentia um privilegiado pelo espaço conquistado.

O bacurau tinha ido para um destino completamente diferente, parecia até as imagens da multidão no carnaval. Ele partiu sem rumo e chegou a lugar algum. Descemos e percebi que meus sapatos tinham ficado dentro do ônibus. Ao tentar voltar para pegá-los, vejo dois amigos indo em direção a outro ônibus. Tive uma alegria aliviadora, disse-lhes com empolgação: Vou pegar meus sapatos e volto correndo para ir com vocês! Consegui encontrar os sapatos, mas meus dois amigos já tinham ido embora, e não havia mais ônibus. Fiquei sentado na calçada e adormeci por alguns minutos.

 Acordei assustado e com um medo inesplicável daquele lugar desconhecido; sim, o desconhecido é mistério e medo, quando consigo ver ao longe uma luz acesa. Corri para lá. Era uma espécie de bar/mercearia; tinham umas 6 pessoas por lá. Elas pareciam indiferentes a minha presença repentina. Tentei interagir para obter informação sobre ônibus que pudessem me levar ao meu destino. Uns diziam que não tinha mais ônibus, outros diziam que tinha, mas que iria demorar. Pedi para trocar um Pix, já que não havia na minha carteira dinheiro em espécie para pagar outro ônibus. Uma moça com seus vinte anos e meio me atendeu com uma gentileza distante. Fiquei ali por um bom tempo tentando me proteger da rua.. Sem razão para continuar ali, dei boa noite e saí novamente pela rua escura e esquisita. Voltei para  a árvore onde tentei dormir horas antes. Os dias se passaram sem que o sol saísse, nem ninguém. O Céu sem Lua se apresentava estranhamente com poucas estrelas. Fiquei ali naquela rua insólita onde o real se fez.. adormeci novamente.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Deus meu mito pessoal

Andei vagando por algum tempo, buscando entender Deus aos olhos da religião, não conseguia vislumbra-lo como um suporte que pudesse dá respostas as minhas inquietações.

Foi quando um belo dia, minha mãe me deu uma cópia de um livro entrevista chamado "O Poder do Mito" do